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A PALAVRA QUE ORDENA TUDO

  • 18 de mar.
  • 5 min de leitura

Da Criação à Nova Criação

(Gênesis 1 – Apocalipse 21–22)

 

Na Escritura, a Palavra de Deus nunca é apresentada como simples som, informação religiosa ou discurso simbólico. Sempre que Deus fala, algo acontece na realidade. A Palavra divina é descrita como princípio eficaz: ela cria, organiza, sustenta, restaura e conduz todas as coisas ao seu cumprimento final. Do primeiro “E Deus disse” em Gênesis até a declaração escatológica “Eis que faço novas todas as coisas” no Apocalipse, a Bíblia constrói uma única e coerente teologia da Palavra.

 

Desde o início, a Palavra não apenas revela a vontade de Deus, mas a executa. Ela não é meramente informativa; é performativa. Por isso, a Escritura apresenta a Palavra como o meio pelo qual Deus governa o mundo, estrutura a realidade e conduz a história.

Essa compreensão encontra uma formulação particularmente clara em Hebreus 11:3, texto que funciona como uma espécie de chave hermenêutica para toda a teologia bíblica da Palavra.

 

O autor de Hebreus afirma: “Pela fé entendemos que os mundos foram ordenados pela palavra de Deus, de modo que aquilo que se vê não foi feito do que é visível” (Hb 11:3). O verbo traduzido por “ordenados” é o grego καταρτίζω (katartízō). Esse termo não descreve apenas o ato inicial de criação, mas a ideia de organizar, ajustar e estruturar algo de forma plenamente funcional. Ele é formado pelo prefixo κατά, que carrega valor intensivo e completivo, e pelo verbo ἀρτίζω, relacionado a ἄρτιος, que significa “completo”, “adequado”, “bem ajustado”.

 

No Novo Testamento, esse verbo aparece em contextos como o conserto de redes de pesca, a restauração de pessoas e o preparo de alguém para exercer adequadamente uma função. Aplicado à criação, o sentido é inequívoco: o mundo não apenas passou a existir, mas foi organizado de maneira intencional, coerente e funcional. O uso do perfeito passivo indica que esse estado de ordenação permanece. Os αἰῶνες — isto é, o tempo, a história e a estrutura da realidade — continuam sob o efeito duradouro da Palavra divina.

 

Essa afirmação dialoga diretamente com a tradição poética dos Salmos. O Salmo 147 declara: “Ele envia a sua palavra à terra; rapidamente corre a sua palavra” (Sl 147:15). Aqui, os termos hebraicos דָּבָר (dābār) e אִמְרָה (’imrāh) não indicam palavra como som, mas como decreto eficaz. A imagem da Palavra “correndo” expressa ação irresistível: aquilo que Deus declara cumpre-se sem impedimento. Enquanto o Salmo enfatiza a dinâmica contínua da Palavra em ação, Hebreus enfatiza o estado produzido por essa ação. A Palavra age, e a realidade responde.

 

Essa lógica já está presente desde o início da Escritura. Em Gênesis 1, a criação se desenvolve por meio da fórmula repetida: “E Deus disse… e assim foi”. O verbo hebraico אָמַר (’āmar) não descreve mera fala, mas ato criador eficaz. Cada palavra pronunciada por Deus separa, define limites, nomeia, organiza funções e estabelece finalidades. O estado inicial da criação é descrito como תֹהוּ וָבֹהוּ (tohû wāvōhû), expressão que não indica inexistência absoluta, mas desordem não funcional. A Palavra transforma essa desordem em cosmos. Assim, já em Gênesis, a criação é apresentada não como caos espontâneo, mas como ordenamento pleno pela Palavra.

 

O autor de Hebreus amplia ainda mais esse eixo ao afirmar que o Filho está “sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1:3). O verbo φέρω (phérō) indica ação contínua: carregar, manter, conduzir. A criação não apenas foi organizada no passado; ela continua existindo porque é sustentada no presente. Aqui surge uma dimensão explicitamente cristológica: a Palavra que sustenta todas as coisas não é impessoal. Ela se revela plenamente no Filho, a expressão exata do ser de Deus.

 

Essa revelação atinge seu ponto decisivo no prólogo do Evangelho de João. O texto afirma: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1:1,3). João retoma deliberadamente o início de Gênesis, mas revela a identidade do agente criador. O Logos, embora expresso em termo grego, carrega o conteúdo hebraico de דָּבָר: Palavra eficaz, criadora e governante. O mesmo texto declara: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1:14). A Palavra que cria e sustenta entra na história humana para restaurar aquilo que foi corrompido.

 

Essa eficácia da Palavra também é afirmada pelos profetas. Isaías registra a própria declaração divina: “Assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a enviei” (Is 55:11). O princípio que governa a criação passa a operar explicitamente na história da redenção. A Palavra continua sendo eficaz, agora aplicada à restauração da aliança e do povo de Deus.

Os Salmos estendem esse mesmo princípio à experiência humana. O Salmo 107 declara: “Enviou a sua palavra, e os sarou, e os livrou da sua destruição” (Sl 107:20). O verbo hebraico רָפָא (rāfā’) significa restaurar, tornar inteiro novamente. A Palavra que organiza o cosmos também reorganiza vidas, libertando da desintegração e devolvendo funcionalidade ao que foi quebrado.

 

O apóstolo Paulo sintetiza essa teologia ao afirmar que Cristo é “a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois nele foram criadas todas as coisas… tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste” (Cl 1:15–17). O verbo συνέστηκεν (synéstēken) indica coesão contínua. A realidade não se desfaz porque está mantida em Cristo. Ele é o centro, o sustentador e o destino final de todas as coisas.

 

Esse arco teológico encontra seu fechamento definitivo em Apocalipse 21–22. João relata: “Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe” (Ap 21:1). O termo “novo” é καινός, indicando novidade em qualidade, não substituição. A renovação culmina na declaração divina: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21:5). Aqui, a Palavra já não é enviada; ela habita. Não há templo, “porque o Senhor Deus Todo-Poderoso e o Cordeiro são o seu templo” (Ap 21:22). A maldição desaparece, e a presença é imediata. O que antes era conhecido pela fé agora é visto.

 

Assim, todo o arco iniciado em Gênesis se fecha. A Palavra cria e ordena o mundo, expressa a lógica da criação, governa continuamente, age eficazmente na história, cura o que foi rompido, estrutura a realidade, sustenta todas as coisas no presente, revela-se pessoalmente em Cristo, unifica tudo nele e conduz a criação inteira ao louvor escatológico do Cordeiro.

 

A Palavra que criou o mundo não apenas o sustentou e redimiu; ela finalmente o preencheu por completo. Essa não é uma coleção de afirmações isoladas, mas uma única teologia da Palavra, progressiva, coerente e canônica, que atravessa toda a Escritura do princípio ao fim.


Artigo escrito por: Wilson Russo Negrizolo (@wilsonnegrizolo)

Graduado pelo Centro de Treinamento Bíblico Rhema e pela Escola de Ministros Rhema

Professor do Centro de Treinamento Bíblico Rhema

Ministro Verbo da Vida e na IEVV SP – Vila Leopoldina


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