CORAÇÃO: UM ÓRGÃO A SER PRESERVADO
- 19 de fev.
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Interessante como a Palavra de Deus trata questões sérias de forma tão lúdica, simples, de modo que possamos entender, compreender e, prontamente, aplicar os seus ensinamentos.
Salomão traz uma advertência e um encorajamento simples, mas poderosos para o nosso avanço em todas as áreas de nossas vidas:
“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.”
Provérbios 4:23
Este provérbio faz parte de uma seção em que um pai (Salomão) transmite instruções ao filho, enfatizando a importância de buscar a sabedoria, viver com retidão e guardar o coração — o centro das decisões, desejos e pensamentos — como prioridade espiritual e moral.
A palavra ou a expressão “coração” ou “teu coração” expressa algo poderoso na língua hebraica, dado não se restringir ao órgão físico. É dizer, em hebraico, coração é libeḵā ou lev, cujo termo não se refere meramente ao “órgão físico”, mas simboliza o centro da personalidade, incluindo:
Mente ou raciocínio (1Rs 3:9)
Vontade ou decisão (Sl 119:11)
Emoções ou desejos (Pv 23:17)
Consciência moral (Sl 51:10)
No antigo Oriente Próximo e no pensamento israelita, o "coração" (lev) era considerado o centro do ser humano, não o cérebro. O termo reflete tanto a sede das decisões morais quanto do entendimento espiritual. A imagem das “fontes da vida” (תּוֹצְאוֹת חַיִּים) evoca a ideia de nascentes de água — fonte de sustento e purificação —, como também aparece em Provérbios 13:14; 14:27; 18:4.
Salomão traz, portanto, um apelo à vigilância interior: mais importante que proteger bens externos é proteger a integridade do “eu” interior, dado que o coração é a origem de decisões, valores e ações — tudo o que define a vida.
Infelizmente, ao longo da história bíblica, vemos homens e mulheres que não foram diligentes com relação ao seu coração e, consequentemente, se desviaram de seu propósito divino:
Adão e Eva: Deus lhes disse para não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2:17). Desobedeceram e foram seduzidos pela serpente, resultando na queda do homem e entrada do pecado e da morte (Rm 5:12).
Saul: Ungido por Samuel, recebeu direção divina, mas desobedeceu em momentos decisivos, perdendo o reino e sendo atormentado espiritualmente.
Salomão: Apesar da sabedoria, casou-se com mulheres estrangeiras e construiu altares a seus deuses, desobedecendo a Deuteronômio 17:17. Como consequência, Deus dividiu o reino (1Rs 11:11).
Sansão: Consagrado nazireu, cedeu a desejos carnais e se envolveu com Dalila, sendo capturado e morto entre os inimigos.
Judas Iscariotes: Apesar de andar com Jesus e ver milagres, foi vencido pela cobiça e traiu o Senhor por 30 moedas. Tomado por remorso, não suportou a culpa e se enforcou (Mt 27:5). O suicídio de Judas foi consequência de seu afastamento da Verdade e rejeição do arrependimento. Não tratamos aqui com condenação, mas com temor e reverência diante da Palavra.
Demas: Era cooperador de Paulo, mas “amou o presente século” (2Tm 4:10) e abandonou o ministério, devido a um coração dividido e instável.
Saul: o arquétipo do coração desviado
Chamado, ungido, e comissionado por Deus, Saul tinha todo o potencial para cumprir seu chamado:
Foi ungido por Samuel (1Sm 10:1)
Recebeu sinais miraculosos (1Sm 10:9–11)
Teve instruções claras (1Sm 10:8; 1Sm 15)
Porém, sua queda foi progressiva, revelando o processo silencioso e destrutivo de negligenciar o coração:
Impaciência (1Sm 13:8–14): Usurpou o sacerdócio ao sacrificar sem Samuel. Resultado: “Teu reino não subsistirá”.
Desobediência parcial (1Sm 15): Poupou Agague e os rebanhos, justificando com falsa espiritualidade. “Rejeitaste a palavra do Senhor, e o Senhor te rejeitou como rei”.
Inveja e perseguição (1Sm 18–26): Perseguiu Davi por ciúmes.
Consulta a médium (1Sm 28): Em vez de buscar ao Senhor, consultou a feiticeira de En-Dor. Resultado: juízo e morte no monte Gilboa (1Sm 31).
Seu problema não foi falta de dons, mas falta de integridade no coração. Provérbios 4:23 se cumpre com precisão em sua trajetória.
O guardar do coração na Nova Aliança
Guardar o coração é responsabilidade humana, não atribuível a Deus. Ele já nos deu o Espírito Santo para nos guiar em toda a verdade. Por isso, Paulo exorta: “Não apagueis o Espírito” (1Ts 5:19).
Como ensinava E.W. Kenyon:
“A fé retém firme a confissão da Palavra. O conhecimento dos sentidos retém firme a confissão das evidências físicas. Se eu aceitar a evidência física contra a Palavra de Deus, anulo a Palavra no que me diz respeito”.
A instrução de Provérbios 4:23 mostra-se essencial à vida cristã. Em todos os exemplos apresentados, o desvio do coração precedeu o desvio do comportamento. Por isso, o coração é o campo de batalha espiritual mais decisivo. O desvio não é imediato, instantâneo, mas progressivo, onde uma semente é plantada e, ao longo de um período, passa a produzir os seus efeitos.
Que tenhamos a mesma disposição de Davi: “Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me assento e quando me levanto; de longe penetras os meus pensamentos. Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos.” (Salmos 139:1-3)
Ao trazer a revelação, que nos arrependamos e voltemos ao lugar de nossa queda, de nosso desvio, de forma a retornar à rota de nosso propósito celestial!
“Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração...” (Hebreus 3:7-8)

Artigo escrito por: Wilson Russo Negrizolo (@wilsonnegrizolo)
Graduado pelo Centro de Treinamento Bíblico Rhema e pela Escola de Ministros Rhema
Professor do Centro de Treinamento Bíblico Rhema
Ministro Verbo da Vida e na IEVV SP – Vila Leopoldina
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