Muito além da crucificação!
- 22 de abr.
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Quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado! E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.
João 19:30
Ao lermos essa passagem, precisamos compreender a dimensão, a profundidade, o comprimento e a largura dessa expressão de Jesus: Tetelestai – Está consumado.
Jesus não apenas venceu a morte. A Sua morte e ressurreição implicaram outros aspectos mais profundos, que se traduzem na vida prática cristã.
O termo τετέλεσται (tetélestai) era usado no mundo greco-romano em contextos administrativos e comerciais, onde uma dívida registrada recebia a inscrição tetélestai, ou seja, paga, quitada, liquidada, indicando que a obrigação foi totalmente satisfeita. Não restava nenhuma pendência legal.
Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz.
Colossenses 2:14
A imagem é exatamente essa: um documento de dívida totalmente quitado e publicamente anulado. Em outras palavras, Paulo declara que a dívida do pecado foi paga integralmente, a exigência da Lei foi cumprida e a condenação foi removida, não parcialmente, não simbolicamente, mas definitivamente e juridicamente resolvida diante de Deus.
Tetelestai era uma expressão jurídica usada para indicar que uma dívida foi completamente paga; na cruz, Cristo declara que a dívida do pecado foi plenamente quitada diante de Deus.
No entanto, além da dívida paga e do resgate, por meio da cruz, Jesus despojou e derrotou o diabo e os demônios, bem como desfez as suas obras. Isso significa que, além de haver a redenção e a restauração da posição espiritual que o homem perdeu com a queda, Jesus conquistou algo adicional e conferiu à Igreja.
E, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.
Colossenses 2:15
Paulo é enfático ao usar o verbo despojar (ἀπεκδύομαι - apekdýomai), que se refere diretamente ao que Cristo realizou na cruz por meio de Sua morte e ressurreição, como ato soberano de vitória. Trata-se de uma expressão de cunho militar-jurídico, que denota a privação de poder, status e autoridade do inimigo derrotado.
Contudo, a obra da cruz não se resume apenas a isso, pois o autor de Hebreus usa a palavra, o verbo destruir, cujo significado aponta para neutralização.
Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também Ele, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo.
Hebreus 2:14
O verbo destruir (καταργέω - katargeo) significa neutralização funcional, “tornar inoperante”, “privar de eficácia”, ou seja, a vitória é descrita como desativação real do poder do inimigo. O inimigo continua existindo, porém sua autoridade foi quebrada em relação àqueles que estão em Cristo.
E não para por aí, pois o apóstolo João utiliza um terceiro verbo: desfazer.
Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para desfazer as obras do diabo.
1 João 3:8
O verbo desfazer ou desarticular (λύω - luo) significa desatar, dissolver, tornar inoperante um sistema ativo de mal. O diabo é apresentado como origem funcional do pecado, não como rival ontológico de Deus. Aqui, λύω funciona como libertação por desmontagem do sistema opressor.
A cruz, portanto, não é apenas o local da expiação, mas o evento decisivo da derrota dos poderes, no qual humilhação, ignorância e morte são transformadas, paradoxalmente, nos instrumentos de sua própria anulação.
Teologicamente, o diabo continua existindo, mas suas “obras” são tornadas inoperantes no âmbito da nova criação. O pecado não é apenas perdoado; ele é desarticulado em seu domínio sobre o crente.
Porque o pecado não tem domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça.
Romanos 6:14
As consequências da queda — como destruição, roubo, miséria, pobreza, falta, doença, enfermidade e morte — estão associadas ao pecado e ao mundo caído, mas não devem exercer domínio sobre a vida daquele que está em Cristo.
Fomos transportados do império das trevas para o Reino do Filho do amor de Deus, passando a viver uma nova realidade espiritual.
Diante de tudo isso, não podemos ter uma visão míope e restrita do sacrifício na cruz como um simples ato de salvação, mas como o meio pelo qual Deus, através de Cristo Jesus, nos fez caminhar em triunfo, segundo uma vida revestida de poder e autoridade, sabendo que: o sistema ativo de mal foi tornado inoperante; mediante a vitória na cruz, houve a desativação real do poder do inimigo e, por conseguinte, a privação de seu poder, status e autoridade sobre aqueles que estão em Cristo.
A cruz não deve ser vista apenas como um evento de perdão, mas como o centro de uma transformação completa: a dívida foi paga, a condenação foi removida, Satanás foi derrotado, seu poder foi neutralizado, suas obras foram desfeitas e uma nova vida foi concedida ao crente. No entanto, essa vitória deve ser conhecida pela Palavra, crida pela fé e vivida diariamente.
Essa é a realidade do cristão: viver em triunfo, não por mérito próprio, mas pela obra consumada de Cristo. A vitória foi estabelecida na cruz e agora é manifesta na vida daquele que anda em fé, permanece na Palavra e exerce sua autoridade em Cristo.
O Deus de paz esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco. Amém!
Romanos 16:20
Portanto, a declaração “Está consumado” não representa apenas o fim do sofrimento de Cristo, mas a consumação de uma obra perfeita, completa e suficiente. A cruz é a redenção, a vitória, a restauração e o início de uma nova vida.
Uma vida na qual o crente, agora em Cristo, é chamado a viver consciente daquilo que foi conquistado — andando em fé e desfrutando da realidade da nova criação.
Wilson Negrizolo

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